segunda-feira, 28 de julho de 2008

ENCONTRO COM A FILOSOFIA

Há muito eu falava em estudar filosofia, acreditando saber do que estava falando... Isso até um ano e meio atrás, quando me tornei efetivamente estudante do Departamento de Filosofia de nossa conceituada Universidade Federal da Bahia, e lá descobri que, como fala o popular, “o buraco é mais embaixo”. Explico: logo ficou óbvio que o que eu achava ser filosofia, ou seja, uma reflexão mais aprofundada sobre tudo, era apenas a parte visível do iceberg!
Se alguém me pedisse hoje para definir a filosofia – pensem num cara mau!-, eu diria, do alto de três enxutos semestres de estudo até aplicado, que a filosofia me fez rever meu conceito do que é o profundo. A busca filosófica mais me parece hoje uma mineração: ela fica cavando as profundezas de suas questões até não ter mais para onde ir. Aqui, e por ter filhos ainda pequenos com os quais assisti várias vezes o filme O Senhor dos Anéis-, me vem a imagem das entranhas das montanhas onde vive o povo dos Anões, extraindo o ouro e outros metais preciosos mas, ao ultrapassar os limites por ganância, também despertando temíveis criaturas há muito esquecidas...

Neste ponto, deixo registrada minha angústia: qual será o perigo, para mim, da filosofia? Não voltar da viagem ao centro do tudo por ter descoberto que lá não tinha nada? Não saber mais a diferença entre a descida ao inferno e a subida ao paraíso, entre o bem e o mal, entre o feio e o belo, entre você e eu, entre o vivo e o não vivo? Não saber nem mais o que quer dizer a palavra “diferença”? Ou seja, perder os sentidos ao buscar o Sentido?
Ou a filosofia me trará algum alívio? Desde que me entendo como gente, sempre tive pensamentos peculiares, dificilmente compartilháveis e raras vezes compartilhados, enfim, uma forma de ver o mundo diferente, digamos, da forma dominante. Senti nestes últimos meses nascer alguma esperança, a de ter mais alguns companheiros de viagem – de viagens?-, sejam eles os autores de obras ou idéias filosóficas tais como Heráclito, Platão, Nietzsche ou Heidegger ou meus pares nas cadeiras da universidade – não adianta insistir, desses últimos não darei nomes!
Voltando à minha ingênua tentativa de definir a filosofia, eu diria que, além de ser mineração, ela também é lapidação. O filósofo que extrair, do labirinto em várias dimensões que é seu pensamento, uma hipótese, uma idéia, uma teoria, terá, por conta da exigência acadêmica aliada aos questionamentos de seus pares, de fundamentar, esclarecer, refinar este fruto de sua intuição e reflexão até deixá-lo tal qual uma gema preciosa lapidada, brilhando de mil facetas!
Mas vamos deixar por aqui essa história de minas, pedras preciosas e diamantes, senão todos vão começar a pensar que, no Brasil, só mineiro que pode ser filosófo!!! Êta, piada besta!!!

Deixo também registrado aqui um receio que tenho quanto ao ensino da filosofia. Os estudantes obviamente precisam tomar conhecimento das obras dos grandes pensadores mas será que a filosofia se resume à história da filosofia? Pois, em momento algum até agora, percebi espaço aberto em sala de aula para discutirmos qualquer idéia própria! Aliás, já ouvi docente dizer em alto e bom tom que ninguém está interessado no que os estudantes pensam: a tarefa seria portanto impregnar-se com pensamentos já confirmados como fundamentais, e só. Então, pergunto: a filosofia é um saber positivo? Estudar filosofia então não passa de uma “decoreba” de conceitos alheios para, no máximo, poder expô-los brilhantemente em um seminário ou em uma tese de mestrado ou doutorado? Minha resposta é um retumbante “Não” pois me parece que, sendo aprendizes-pensadores, não podemos apenas ficar gravando conceitos aristotélicos ou kantianos. No entanto, repito, não se trata de modo algum de descartar estes estudos - nem tanto ao céu nem tanto à terra!-, pois estamos seguros da imensa valia do acesso a outras análises de mundo...
Mas a filosofia, e portanto seu estudo, não é também, como já ouvi dizer e já li em algum texto também famoso, desenvolver um diálogo com estes pensadores famosos? Resumindo meu receio quanto ao ensino da filosofia: somos preparados para sermos meros repetidores, eruditos estudiosos de obras filosóficas, ou existe alguma esperança de podermos um dia dar à luz pensamentos nascidos do vibrante encontro de pensamentos notáveis com nossas humildes reflexões sobre o mundo contemporâneo?



Pois tenho que deixar claro que minha aventura na filosofia nasceu das questões da contemporaneidade, do mal estar profundo que todos podemos perceber em nós mesmos, ao nosso redor e em todo nosso pequeno e grande planeta. E esta crise aguda parece-me clamar por pensamentos novos e vigorosos, outros modos de conceber a realidade, outras posturas e comportamentos do homem com o homem e com o mundo... O fato é que alguma coisa está podre no reino da humanidade e penso que cabe a nós, humanos, tentar desvendar e enfrentar esta crise com todo nosso empenho antes que seja tarde...
E minha última pergunta por hoje, a pergunta central para mim, é esta:
SERÁ QUE A FILOSOFIA PODE NOS AJUDAR?

2 comentários:

Jornal disse...

Bom, você conhece meu pessimismo em relação ao mundo. E olha que eu nem estudei filosofia! Na verdade, eu penso em causa própria se o jornalismo pode ajudar alguém, além dos próprios jornalistas empregados. Hum!...acho que vou beber.

Benício (Golfinho) disse...

Christine, seria bom conversar contigo sobre um texto e uma entrevista sobre e com Porchat. Estão no final do livro "O Ceticismo e a Possibilidade da Filosofia" (Ijuí: Editora Unijuí, 2005).

Senti angústias assemelhadas... (embora me mantenha um típico conservador)